Mais do que piu-piu-piu...

Quarta-feira, 17 de Março de 2010

De volta ao comboio e por sua vez aos livros - O Tigre Branco

Se não quiserem ler este testamento, passem logo para a parte dos excertos e se gostarem voltem acima, mas acreditem que eu acho que vale a pena. Até porque é o meu post maior lol.

Agora que se acabou a fisioterapia, regressei às viagens de comboio até ao trabalho. E como eu sou um tipo que gosta de aproveitar minimamente o tempo perdido nestas viagens costumo arranjar uns hobbys. Já vi séries, já joguei jogos, mas nos últimos tempos tenho sido ainda mais produtivo e ando a ler.

Venho aqui falar do segundo livro que já leio nestas viagens. Vou passar o primeiro à frente, que faz parte de uma trilogia que se vai ficar pelo primeiro livro... Continuando o livro é este:
"O tigre branco" de Aravind Adiga. Relata a história de um jovem que cresce no interior miserável da Índia e que se torna num empresário de sucesso em Bangalore e num procurado pelas autoridades pelo homicídio do seu antigo patrão.

É um livro curioso logo a começar pela estrutura, basicamente estamos ao longo do livro a ler várias cartas (ou a redacção das mesmas) em que o personagem principal escreve ao primeiro ministro da China que vem em visita oficial à Índia.

Mas aquilo que agarra mesmo é a forma verdadeiramente crua como é exposta, utilizando na maior parte das vezes a ironia, a realidade miserável de uma país como a Índia que se apregoa como uma potência emergente.

Deixo aqui um ou outro excerto para entenderem aquilo que eu digo:

"Com certeza já ouviu falar no Ganges o rio da emancipação, e todos os anos chegam a Hardwar e a Benars centenas de turistas americanos para tirar fotografias de sadhus despidos, e o primeiro ministro irá seguramente descrever-lho assim e encorajá-lo a dar um mergulho.
Não! - Sr. Jiabao, eu aconselho-o a não mergulhar no Ganges, a menos que queira ficar com a boca chia de fezes, de palha, de bocados encharcados de cadáveres humanos, de carne putrefacta de búfalo, para além de sete tipos de ácidos industriais."

"Mas porque é que não está aqui nenhum médico, tio? - perguntei eu. - É o único hospital em ambas as margens do rio.
...
- Sabe, é assim - respondeu o mais velho dos muçulmanos- existe um inspector médico do governo a quem cabe certificar-se de que os médicos visitam os hospitais das aldeias como esta.
- Levantou os pés para cima de uma mesa imaginária. - a seguir convoco os médicos subalternos do governo que estou encarregado de fiscalizar, ao meu gabinete. Grito «Dr. Ram Pandley.»
Apontou-me um dedo; e eu assumi o meu papel na farsa - aqui estou senhor!
 - Agora, o senhor...Dr. Ram Pandley... tenha a gentileza de depositar um terço do seu salário na palma da minha mão. Lindo menino. Em troca, faço isto. - traçou um sinal de visto no livro de registo imaginário. - Pode ficar com o resto do salário do governo e ir trabalhar para um hospital particular o resto da semana. Esqueça a aldeia. Porque, de acordo com este livro de registo já lá esteve. Tratou da ferida na perna. Curou a icterícia daquela menina.
...Cerca das 6 horas desse dia, tal como o livro de registos do governo fielmente informou, o meu pai ficou curado da tuberculose de uma vez para sempre." O parágrafo seguinte, é mesmo violento para estar a descrever aqui, mas envolve sangue contaminado e cabras (e isto é passado num hospital).


 "Ao que consta, senhor, vocês, os chineses, encontram-se muito adiantados em relação a nós em todos os aspectos, à excepção do facto de não terem empresários. E a nossa nação, apesar de não ter água potável, nem electricidade, nem sistema de esgotos, nem transportes públicos, nem regras de higiene, nem disciplina, nem boas maneiras, nem pontualidade, verdade seja dita que empresários não faltam. São aos milhares. Sobretudo na área da tecnologia..."

3 comentários:

Vera disse...

Emprestas-me?

Lila* disse...

Tenho de fazer uma dedicatoria bonita:)

Lila* disse...

Quem ofereceu?=)